A Arte Liberta

O Instituto Pensar através do Projeto Direitos Humanos na Prisão leva a força transformadora da arte para o interior de uma das maiores prisões brasileiras:  a Cadeia Pública de Porto Alegre. Sucatas apreendidas em desmanches se transformam em esculturas, produzidas por presos, dentro do Presídio Central de Porto Alegre, atual Cadeia Pública da capital gaúcha. A solda, ferramentas, pincéis e vernizes, há cerca de dois anos, ocupam as mãos de homens que se descobriram muito mais do que condenados: são artistas.

Assim como o ferro quente e retorcido, eu também fui moldado. Sou um apenado, preso ou reeducando, estou impedido de ir e vir. Mas hoje estou mais livre do que era quando estava fora, pois aqui emergiu o melhor de mim, um artista reconhece

Para além da materialização da força transformadora da arte, que interfere tanto no objeto, fruto de um crime, como também no comportamento humano, a ideia faz parte de um projeto que pretende investir na reconstrução das relações sociais. Incentivar a abertura, dentro da prisão, de um espaço de convívio lúdico e formador, no qual dialogam professores, estudantes e artistas, com inspiração naquilo que todos têm em comum, e não nas suas diferenças.

PR1Já foram realizadas três exposições com criações dos artistas do presídio. A quarta edição da exposição Arte Liberta – A Transformação pela Arte iniciou no dia 1º de setembro e segue até o próximo dia 22, na Universidade do Vale do Taquari (Univates), em Lajeado. Dom Quixotes, cavaleiros, homens de lata, pais e filhos, pensadores, automóveis, instrumentos musicais buscam o vínculo positivo com o espectador, permitindo que este também se transforme pela percepção de que da prisão também emerge a sensibilidade. As peças são vendidas e revertem para os artistas e para a manutenção de um ateliê autossustentável, que obtém sua matéria-prima de doações e sua arte do trabalho dos apenados. Foi, inclusive, a energia liberada por estas atividades que impulsionou a criação da Escola de Artes dentro da Cadeia Pública, em 2015, por iniciativa dos próprios apenados.

Construído em 1959, o Presídio Central tem capacidade para abrigar 1.824 homens. Porém, dados de agosto da Superintendência de Serviços Penitenciários do RS (Susepe) registram 4.705 detentos no local, distribuídos em nove pavilhões. A precariedade da Cadeia Pública, fruto do descaso estatal, já foi, inclusive, motivo de denúncia junto à Corte Interamericana de Direitos Humanos. O local teve sua situação agravada com a demolição do Pavillhão C, em 2014.

A despeito deste cenário de violência e degradação, cerca de 12 pessoas trabalham, atualmente, na Escola de Artes do Presídio, um espaço que se aparta das relações prisionais marcadas pela influência das facções criminosas. Quatro presos já obtiveram sua carteira de artesão, se qualificando a desenvolver atividades de forma rentável, principalmente após a liberdade. E ensinando tudo o que sabem para aqueles que estão chegando.

 

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