Pensar porque? Por que Pensar

“A educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos a responsabilidade por ele e, com tal gesto, salvá-lo da ruína que seria inevitável não fosse a renovação e a vinda dos novos e dos jovens”.

Hannah Arendt

            Nossa época já recebeu inúmeras denominações a partir da análise de autores das mais variadas correntes de pensamento: modernidade líquida, pós-fordismo, sociedade de risco, modernidade tardia, pós-modernidade, etc. Nascidas de reflexões que se pretendem abrangentes, expressam conceitos como ideais-força que nos remetem às grandes sínteses europocêntricas e totalizadoras, por conseguinte incompletas e excludentes, pois não exercem o reconhecimento da diferença em construção. Estas análises guardam em comum a compreensão de um tempo de profundas transformações dos marcos civilizatórios da modernidade, sendo tributárias de um modelo paradigmático que enfatiza uma determinada ordem de fenômenos e reclama diante de sua subversão: descrevendo um cenário de “crise”, apontam para a destruição das estruturas já conhecidas, numa indisfarçável melancolia de Janos.

           As instituições modernas e as ciências que as constituíram enquanto formuladoras das “disciplinas”, como teorizou Foucault, vivem a profunda realidade de um déficit teórico-prático que se avoluma perante os novos contextos. A experiência social em toda sua pluralidade e complexidade transborda nos espaços sociais em tempo real e sua captura parece ser uma tarefa de Sísifo. “Tudo que é sólido se desloca no ar”, parafraseando a conhecida citação de Marx: populações, fronteiras, estruturas, tratados, saberes, riquezas, direitos, enfim a totalidade social se constitui, precariamente, em configurações expostas a um amplo conjunto de processos interativos e intersectivos, como Delleuze já anotara.

            Crise estrutural das instituições modernas: crise dos modelos de confinamento e sujeição, crise do sujeito de direitos, crise dos paradigmas científicos. A insatisfação está em toda a parte, a representação política submete-se aos mercados que nada promovem além de interesses privados, a sociabilidade naufraga nas lutas pela sobrevivência cotidiana, as múltiplas defasagens a que são submetidos os cidadãos, que perdem direitos da noite para o dia, incendeia as populações e fertiliza ressentimentos e ódios. A única utopia que se apresenta, a sobrevivência no mercado, sinaliza a perda de narrativa e, portanto, da construção de sentido.

            Como dito há 50 anos, sejamos realistas, peçamos o impossível. É possível olhar para além das conjunturas e seus tremores buscando convergir forças na construção de sentidos para nossas vidas. Na perspectiva da complexidade, o presente nos permite resgatar o significado aristotélico do termo “crise”, como atributo do pensar humano: krinos no sentido de avaliar e julgar. Com “a cabeça onde os pés pisam” podemos construir a partir da potência dessa nova configuração social; um espaço inédito de múltiplas possibilidades, nascidas justamente das vontades e desejos não atendidos por uma institucionalidade incapaz de responder à pluralidade e o calor cultural, nas palavras de Morin.

            Sabemos que a ação, o pensamento e a alteridade constituem os milagres das sociedades humanas, como ensinava Hanna Arendt e, justamente esta reflexão inspirou nossos movimentos. As ciências sociais precisam ir além das constatações e colocar seu arcabouço teórico à serviço das energias transformadoras que nosso tempo oferece. Essa ruptura paradigmática, envolve, abraçar a complexidade; desintegrar as dicotomias entre ciência e arte, acadêmico e popular, nós e eles; implicar as análises críticas de conteúdos performativos: desenvolver as práticas que enriquecem as teorias, promover o espiral dialógico: ensinar-aprender.

       Preferimos a palavra “reexistência”, por expressar as potencialidades utópicas e transformadoras que pretendemos trazer à Ágora. Abdicamos da palavra “resistência”, justamente por recusar às injunções instrumentalizadoras e mercadológicas que gritam uma racionalização que se pretende hegemônica. Escolhemos reinventar, paradigmas e saberes. Buscamos compartilhar experiências, coexistir.

          A dinâmica incessante da humanidade se manifesta pela destruição e reconstrução da obra humana, já ensinou Heráclito. Façamos então o trabalho meticuloso de construção do nosso tempo como agentes da educação, apoiados nos marcos referenciais do pensamento complexo e inspirados na fecunda experiência dos valores representado pelos Direitos Humanos.

           Esse é nosso pensar e nosso convite,

                                                                            Celso Rodrigues, Gabriel Webber Ziero, Leidiane Pias Dias e Vinicius da Silva Rodrigues

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s